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Ciência e tecnologia de alimentos em pauta

Margarina é plástico? Entenda a ciência por trás desse alimento

Margarina é plástico? Entenda a ciência por trás desse alimento

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ITAL - Instituto de Tecnologia de Alimentos

8 de maio de 2026 | 8 min de leitura

Você provavelmente já viu nas redes sociais algum vídeo dizendo que margarina é praticamente um “plástico”. A comparação costuma vir acompanhada de frases como “olha a textura” ou “isso não é comida de verdade”.

Mas será que essa ideia faz sentido?

Para responder, vale olhar para a história da margarina, entender como ela é produzida hoje e o que mudou ao longo do tempo.

DE SUBSTITUTA DA MANTEIGA À PROTAGONISTA DE DEBATES

A margarina não nasceu nas redes sociais. Ela surgiu no século XIX, por encomenda de Napoleão III, que buscava uma alternativa mais acessível à manteiga para alimentar o exército e a população francesa.

No início, era feita a partir de gordura animal. Com o avanço da tecnologia de alimentos, sua formulação passou a utilizar óleos extraídos de plantas, como soja, milho e girassol (óleos vegetais). A ideia sempre foi a mesma: produzir uma gordura espalhável, estável e acessível.

o papel da gordura na alimentação

Ao longo das décadas, a margarina já foi vista como solução moderna, depois como vilã nutricional, especialmente por causa da presença de gordura trans em versões antigas. Como acontece com muitos alimentos, sua história acompanha o avanço da ciência e da regulação sanitária.

 

QUANDO O HIDROGÊNIO ENTROU NA HISTÓRIA E O ALERTA SOBRE GORDURAS TRANS SURGIU

Durante décadas, muitas margarinas foram produzidas por um processo chamado hidrogenação.

De forma simples, a hidrogenação transforma óleos líquidos em gordura sólida por meio da adição de hidrogênio aos ácidos graxos, sob pressão, com auxílio de um catalisador químico. O resultado é uma gordura mais estável e com textura firme.

Só que a hidrogenação tem um problema. Porque, além de transformar óleo em gordura sólida, ela produz outro efeito: adiciona as chamadas gorduras trans aos alimentos. Elas aparecem porque, na prática, a hidrogenação não é perfeita. Os átomos de hidrogênio não se ligam corretamente em todas as moléculas, e algumas podem se converter em gordura trans, que recebe esse nome porque seus átomos de hidrogênio ficam dispostos de forma diferente na estrutura molecular.

A gordura trans faz parte da nossa alimentação em pequenas quantidades, pois também está presente naturalmente em alguns alimentos. O problema é que, com o uso da hidrogenação, o consumo aumentou significativamente. E o consumo excessivo de gordura trans foi associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares.

Essas descobertas fizeram com que a Organização Mundial da Saúde (OMS) passasse a recomendar sua eliminação da cadeia alimentar. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibiu, a partir de janeiro de 2023, o uso de gorduras trans em alimentos comercializados no país.

Exceções: A medida não se aplica às gorduras trans presentes naturalmente em alimentos de origem animal (carne, leite e derivados).

TECNOLOGIA DOS ALIMENTOS E UMA NOVA SOLUÇÃO: A INTERESTERIFICAÇÃO

Diante desse cenário, a ciência dos alimentos buscou novas estratégias para alcançar as características desejadas da margarina, sem recorrer à hidrogenação. Foi nesse contexto que ganhou força a interesterificação.

A interesterificação não adiciona hidrogênio às moléculas. Em vez disso, reorganiza os ácidos graxos dentro da gordura. Essa reorganização altera o ponto de fusão e permite transformar óleos vegetais líquidos em gorduras com consistência mais sólida, sem formação de gordura trans.

O processo já era conhecido há décadas, mas passou a ser adotado de forma mais ampla a partir dos anos 2000, especialmente com o aumento das evidências científicas sobre os efeitos do consumo excessivo de gordura trans e, posteriormente, com sua proibição regulatória.

As margarinas comercializadas atualmente no Brasil são produzidas sem gordura trans, conforme exigido pela legislação.

Leia também: A multidisciplinaridade da ciência dos alimentos

AFINAL, MARGARINA É PLÁSTICO? VAMOS FALAR DE QUÍMICA

A comparação entre margarina e plástico costuma surgir porque ambos podem apresentar consistência sólida e formar estruturas organizadas. Mas, do ponto de vista químico, são substâncias completamente diferentes.

O plástico é um polímero sintético, geralmente derivado do petróleo, formado por longas cadeias moleculares repetidas. Essas cadeias não são reconhecidas nem metabolizadas pelo organismo humano.

Já a margarina é um alimento. Ela é composta principalmente por triglicerídeos, moléculas formadas por ácidos graxos ligados ao glicerol, que fazem parte da nossa alimentação cotidiana.

A margarina é uma emulsão de água e lipídios. Sua consistência sólida vem da organização física desses lipídios em uma rede cristalina microscópica.

emulsao_margarina

 

É verdade que essa rede estruturada pode lembrar, visualmente, a organização de plásticos. Mas essa semelhança é apenas estrutural, em escala macroscópica. Quimicamente, estamos falando de substâncias distintas.

Os lipídios presentes na margarina são digeridos, absorvidos e utilizados pelo organismo. Plástico não.

MARGARINA, ÓLEOS E GORDURAS: QUAL É A DIFERENÇA?

A margarina é um alimento à base de óleos vegetais. Para entender isso melhor, vale diferenciar óleo e gordura.

Óleos e gorduras são formados por ácidos graxos, mas apresentam diferenças na composição e no comportamento físico. Em geral, os óleos são líquidos em temperatura ambiente porque contêm maior proporção de ácidos graxos insaturados. Já as gorduras tendem a ser mais sólidas porque possuem maior proporção de ácidos graxos saturados ou uma organização estrutural que favorece a solidificação.

Ácidos graxos saturados são aqueles em que as ligações entre os carbonos são simples, ou seja, estão “saturados” de hidrogênio. Já os ácidos graxos insaturados possuem uma ou mais ligações duplas, o que influencia sua estrutura e comportamento físico.

Na margarina, óleos vegetais líquidos passam por processos tecnológicos que reorganizam suas moléculas para alcançar a consistência desejada. Isso não transforma o alimento em plástico. Trata-se de uma modificação física e estrutural de lipídios alimentares.

Além disso, existem versões enriquecidas com vitaminas, grãos ou fitosteróis, compostos de origem vegetal utilizados em algumas formulações com finalidades específicas. Também existem margarinas que em sua formulação apresentam alguma quantidade de manteiga em sua composição.

margarida_fitosterol

E QUANTO À SAÚDE?

A margarina é um alimento composto principalmente por lipídios de origem vegetal. Como qualquer fonte de gordura, fornece energia e deve ser consumida com moderação dentro de uma alimentação equilibrada.

O ponto central é compreender sua composição atual. Hoje, as margarinas comercializadas no Brasil não contêm gordura trans. Sua formulação é baseada em óleos vegetais reorganizados por processos como a interesterificação.

Isso não significa que seja um alimento que deva ser consumido em excesso, mas também não sustenta a ideia de que seja equivalente a plástico ou que represente, por definição, um risco à saúde.

MARGARINA OU MANTEIGA?

Margarina foi criada como substituta da manteiga e, até hoje, muitas comparações giram em torno dessa oposição.

Ambas são fontes de gordura. A manteiga é derivada do leite e contém maior proporção de gordura saturada. A margarina é produzida a partir de óleos vegetais e sua composição depende da formulação específica.

Não existe uma resposta única válida para todas as pessoas. O mais importante é compreender o papel desses alimentos dentro do padrão alimentar como um todo.

A Fabiana Sabadini, Chefe Substituta de Seção de Comunicação Científica do Ital, explica um pouco mais sobre as diferenças da manteiga e margarina no vídeo: Manteiga ou margarina: qual é a sua escolha na hora de cozinhar?

O QUE ESSA HISTÓRIA NOS ENSINA

Depois de entender essa trajetória, a pergunta muda: você ainda acha que margarina é plástico?

A trajetória da margarina mostra como a ciência identifica problemas, propõe soluções e como a regulação acompanha essas mudanças. A presença de gordura trans foi um ponto crítico. Evidências científicas mostraram riscos. Autoridades sanitárias regulamentaram. A indústria reformulou.

Reduzir essa discussão à frase “margarina é plástico” não apenas simplifica, mas distorce um tema complexo, transformando-o em uma comparação inadequada que ignora completamente os fundamentos da ciência dos alimentos.

Informação substitui medo. Entender como um alimento é feito ajuda a fazer escolhas com mais consciência e evita cair em narrativas alarmistas que simplificam ou distorcem a realidade dos alimentos.

 

REFERÊNCIAS

Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital). Alimentos industrializados: a importância para a sociedade brasileira. Ebook institucional, 2018.

Silva, T. J., Barrera-Arellano, D., Ribeiro, A. P. B. Margarines: Historical approach, technological aspects, nutritional profile, and global trends. Food Research International, 2021.