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Ciência e tecnologia de alimentos em pauta

GLP-1: oportunidade para a indústria de alimentos e bebidas

GLP-1: oportunidade para a indústria de alimentos e bebidas

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ITAL - Instituto de Tecnologia de Alimentos

20 de maio de 2026 | 6 min de leitura

Por Luis Madi, Coordenador da Plataforma de Inovação Tecnológica do Ital

Venho percebendo que as pessoas estão mudando sua relação com a alimentação, cada vez mais preocupadas com a saúde. Em meus últimos artigos, no LinkedIn, discuti sobre as tendências e oportunidades para a indústria de alimentos e bebidas, principalmente com o aumento do consumo de proteínas, fibras e agora dos medicamentos análogos do GLP-1, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy.

Para mim, o aparecimento das canetas injetáveis – e em breve de medicamentos ingeridos – é um divisor de águas para a inovação tecnológica no setor de ingredientes, alimentos e bebidas. O protagonismo da nossa indústria é fundamental para responder a esse novo comportamento do consumidor, que agora busca, mais do que nunca, o equilíbrio entre conveniência e o que chamamos de saudabilidade.

O impacto que vejo é direto e mensurável. Segundo estudos iniciais, foi observada uma redução de aproximadamente 30% do consumo calórico – dependendo da dosagem – entre os usuários desses medicamentos. Além da diminuição da fome, digestão mais lenta e perda de massa muscular. Porém, também conta com efeitos colaterais, como: náusea, vômito, diarreia, constipação e perda de força.

Daí surge a necessidade de consumir mais proteínas, fibras, vitaminas e sais minerais, além de termos uma boa digestibilidade e hidratação. Mas isso é uma tendência não só para usuários do GLP-1, mas também para ex-usuários e para quem não utiliza o medicamento. Este movimento tem gerado uma grande procura por alimentos e bebidas que deem mais saciedade, melhor digestibilidade e eficiência metabólica em uma quantidade 30% menor de comida, isto é, produtos com maior densidade nutricional.

Minha dúvida é: conseguimos atingir isso somente com alimentos e bebidas? Na minha percepção, será necessária uma suplementação, consequentemente uma oportunidade para as indústrias de ingredientes e farmacêutica.

De acordo com estudo da consultoria NielsenIQ, aproximadamente 62,2% dos usuários já alteraram drasticamente suas prioridades de gastos e hábitos de consumo. Entendo que essa transição exige que a indústria atue com agilidade, tornando a densidade nutricional o eixo central do desenvolvimento de produtos.

Tenho observado grandes players globais e nacionais se movimentarem para atender este público. A Nestlé, por exemplo, lançou a linha Vital Pursuit, refeições prontas congeladas com alto teor de fibras e proteínas e baixo valor calórico. No setor de lácteos, a Lactalis introduziu o iogurte Profíber, com 10gr de fibras e 20gr de proteína por porção.

No Brasil, seguindo essa tendência, a JBS traz refeições congeladas com maior teor de proteínas e fibras, enquanto a Perdigão lançou novas refeições com 47 g de proteína e adição de colágeno. Isso demonstra que a tecnologia de alimentos é a ferramenta capaz de transformar esse desafio em uma oportunidade real de entrega de conveniência ao consumidor.

Para David Despain, do departamento de Nutrição e Saúde da Nestlé, “não é mais o quanto você come, mas o quanto do produto que você come suporta sua saúde”. Mas não podemos esquecer que o prazer também é importante para o consumidor.

No caso dos usuários do GLP-1, o medicamento pode deixá-las mais sensíveis e exigentes. Por isso, a importância da avaliação sensorial, produtos pensados para esse público devem ter sabores e texturas mais suaves, uma aparência mais neutra e na boca uma maior facilidade de consumo.

A indústria de ingredientes, alimentos e bebidas precisa se envolver no processo de comunicação junto ao consumidor. Transparência é fundamental e, com ela, teremos mais credibilidade, inclusive para combater Fake News.

No Projeto Comer com Ciência, do Ital, reafirmo meu posicionamento de que a transparência e a base científica são os pilares dessa nova fronteira. Não basta inovar, para mim, é preciso comunicar com clareza. Acredito que a integração entre ciência e indústria permitirá transformar o impacto do GLP-1 em um legado positivo para a saúde coletiva. O futuro da alimentação está sendo escrito agora, e ele é, invariavelmente, pautado pela busca incessante pela excelência nutricional.

Você já viu algum produto no mercado seguindo essa tendência?

 


Referências:

CHIARA, M. DE. Caderno de Economia e Negócios | Canetas emagrecedoras mudam os hábitos de consumo e cortam gastos. O Estado de S. Paulo, 5 abr. 2026a.

CHIARA, M. DE. Caderno de Economia e Negócios | Indústrias e supermercados se adaptam às mudanças “feitas” pelas canetas. O Estado de S. Paulo, 5 abr. 2026b.

CHIARA, M. DE. Caderno de Economia e Negócios | Uso da caneta muda prioridade de gastos para 62,2%, diz pesquisa. O Estado de S. Paulo, 5 abr. 2026c.

COELHO, D. Nutrição | Canetas para obesidade e a relação com a massa magra. O Estado de S. Paulo, 2 maio 2026.

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